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Alma Minha...

Arquivo de sonhos e memórias.

Alma Minha...

Arquivo de sonhos e memórias.

24
Dez10

Entremos...É Natal...

 

 

 

Estrela de Natal 

Estrela de Natal - Autor desconhecido

 

 

"Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados..."

 

 

A voz da Mariana entoava na sala de uma forma que caía fundo no coração. Pelo menos no meu.


Conhecera-a meses antes, exactamente naquela sala e logo uma empatia nos juntou.


Não era dada a grandes conversas, nem a falar de si. Só o sorriso e o seu olhar mostravam a serenidade da sua alma.


Éramos um grupo de perto de vinte, pertencentes a um coral, alegres e barulhentos, que se juntavam à quinta-feira para ensaiar. A Mariana fazia parte dele.


Durante o mês de Dezembro os ensaios eram mais intenso com os cânticos de Natal e ainda com as recitações, que alguns gostavam e era isso que a Mariana fazia naquele momento. Lia o “Poema de Natal”, de Vinícius de Moraes com uma tal intensidade, que arrancou lágrimas de alguns olhares. E de mim.


Senti a sua falta no almoço de Natal, até porque embrulhara cuidadosamente a caixinha de música que ela olhava tão insistentemente, na montra da loja onde passávamos diariamente. Cumpríamos a tradição de todos os anos e custou-me não ter ali a Mariana.


Corri a sua casa e quando a Mãe me abriu a porta, senti de imediato um frio percorrer-me.
Nada ali, fazia lembrar que ia haver Natal…
- A Mariana está? – Perguntei um pouco timidamente.
- Sim, eu acompanho-a – e a sua voz era triste.
Só os olhos da Mariana sorriram quando entrei.
Permaneci ali calada durante breves instantes, apertando a mão que ela me estendeu.
- Trouxe-te a tua prenda, porque não me disseste que estavas doente?
- Não há nada a fazer…
e a sua voz era doce, sem qualquer rasgo de revolta.

Ficámos ali as duas, ouvindo a música que saía da caixinha… e quando, ao cair da noite nos despedimos, o Natal para mim, tinha outro significado…


Vela por todos os meninos doentes... por aqueles que têm fome e frio, que não têm onde se abrigar, que não têm um carinho, nem um sorriso…
Aí nesse local onde estás... Mariana...

 


Entremos, apressados, friorentos,
Numa gruta, no bojo de um navio,
Num presépio, num prédio, num presídio,
No prédio que amanhã for demolido...

Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
Porque esta noite chama-se Dezembro,
Porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
Duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
A cave, a gruta, o sulco de uma nave...

Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
Talvez seja Natal e não Dezembro,
Talvez universal a consoada.

 


(David Mourão Ferreira in Poema “Natal e não Dezembro”)

 

 

 

Ouvir o poema na voz do Luís Gaspar  
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema) 

 

09
Dez10

Sonhos

Eugenio Recuenco

 Imagem de Eugenio Recuenco


 
 

Deu a volta maquinalmente à chave desligando o motor do veículo e recostou-se para trás enquanto fitava a paisagem à sua frente.

 

O mar revolto contrastava com a calma do seu coração e lembrou-se dos tempos em que todo o seu corpo fremia como as ondas que contemplava.

 

Saiu do carro devagar e percorreu a praia, palco de outros dias… outros sonhos…

Maquinalmente, pegou no pequeno tronco caído no chão e desenhou as letras que compuseram a palavra “Sonhos” e sentou-se na areia contemplando-a, enquanto a espuma das ondas levava, lentamente, cada uma delas…

 

Apetecia-lhe mergulhar naquele mar e deixar lá todas as recordações e quando regressasse à margem nada existisse nela que lhe trouxesse lembranças, mesmo aquelas mais felizes; queria saber-se limpa de todas as reminiscências que a rodeavam.

 

Lentamente, tirou uma a uma cada peça do vestuário e mergulhou nas águas revoltas, afastando-se cada vez mais da margem.

 

Quando quase perdia o fôlego parou e virou-se para trás: a linha do horizonte era tão minúscula que mal se via a separação entre a terra e o mar.

 

Era assim que ela queria as suas recordações: uma linha no horizonte…
Por instantes flutuou nas ondas revoltas e depois deixou que elas a levassem de volta.

 

Indiferente aos olhares de quem passava, caminhou completamente desnuda pela areia sentindo gotas deslizarem na sua face, mas não se importou!

 

O que sabiam aqueles olhares indiferentes gélidos de interrogações, da alma de cada um?

 

Era naquele instante uma ilha deserta, onde os seus pensamentos e ilusões eram os seus únicos ocupantes, mas onde desejava deixar entrar luar, estrelas, carícias, desejos…

 

Tudo dentro dela pedia um só momento, uma só palavra, que enchesse a ilha de um sol deslumbrante, mas sabia que esse momento não iria existir.

 

Calmamente por sobre o corpo molhado, o vestuário voltava ao seu corpo, quando… sentiu um barulho que se aproximava, cada vez mais…

 

Abriu os olhos e…

 

 

S implesmente 
O sonho
N ão acaba
H oje… porque 
O meu
S onho, és tu!

 

.

01
Dez10

No silêncio do vento

Na "minha" praia favorita num dia frio...


 

Hoje acordei com vontade de ser feliz.

De deixar fluir o meu âmago de mulher e viver cada momento que a vida oferece, numa simples flor, num passeio ao longo do mar ou na carícia de um tímido beijo; voltar ao local dos meus sonhos e embalar-me na ternura dos teus braços, enquanto sussurras palavras de amor, roçando a minha pele que se cola à tua como se fossemos um só corpo e vontade.

Em cada viagem a imaginação é um sol de deslumbramento, num tempo sem tempo, onde pinto o sonho na palma da mão e com ela rasgo o teu sorriso em carícias de pele, em fôlego de desejos na consagração do amor.

Memória de sussurros no término da noite, onde te dás e eu me dou, gota a gota, em beijos cálidos como música, saciando-nos na energia do alento de viver, sorrindo, a cada carícia com que tomas meu corpo como se fosse a tua casa e contas a história da nossa ternura, em etapas de anos, suspiros e encantos, marcas visíveis aos olhos da alma onde nos demos com fervor, em mãos inundadas de afectos e uma linguagem só por nós perceptível.

No silêncio do vento em fogo de mar ardente, nas asas dos teus braços eu esvoaço, no sabor a uvas e chá de jasmim e sorrio para ti.

Hoje acordei com vontade de ser feliz e no teu corpo de sândalo deixar-me amar.

Na eterna carícia dos teus lábios, no fogo da língua percorrendo a nudez do meu corpo, uma melodia de desejos, um a um, saciando-nos.

Hoje não acordei de um sonho. Quero ser a satisfação do próprio sonho.

Amar é a única verdade que possuímos.


 30 de Novembro de 2009