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Alma Minha...

Arquivo de sonhos e memórias.

Alma Minha...

Arquivo de sonhos e memórias.

24
Ago13

Ouro negro

Otília Martel
Rita Loyd
 
Chovem pirilampos
 

nas sílabas que se entrecruzam

linha a linha 

no pensamento da palavra

e nos sons esculpidos

pelo bosque silente da aurora.

 

No rulhar dos pássaros entre

o viçoso verde do arvoredo,

Mãe Gaia, entre rocha e lava,

chora a diáspora sangrenta  

que, da entranha da terra,

o ouro negro é causador.

 

Subsiste uma luta pagã

entre gigantes e deuses

no limite intangível da

natureza e todos os homens

submergem na fria mortalha

que o planeta lhes reservou.

16
Ago13

Amanheço-me

Otília Martel

Amanheceu chuvoso como se o planeta chorasse todas as incompreensões do mundo…   

Pintura de Francine Van Hove

  Pintura de Francine Van Hove

 

Amanheço-me

na penumbra de Outono 
em dias de Verão
quando o sol do meio-dia 
ainda chora 
os vorazes dias da terra
alongando a sua ausência
nos espelhos de água 
onde se projectam emoções freudianas 
dos que se olham, 
largamente, 
em narcose acentuada.

Amanheço-me
em desejo do intenso sol 
projectando a vivaz alegria 
de uma vida simples e decantada.  

07
Ago13

PLACIDEZ

Otília Martel
 
 

Olho-te em silêncio.


Sejas quem sejas sob meus olhos semicerrados
clarividentes de palavras enfeitadas de pronuncias
opostas, mágicas, no sentido que se dão, a todas elas.

Perscrutas instantes em torno do espírito primitivo
ambíguo de desejos insaciáveis, corpo em corpo,
pele, pálpebras cerradas, energias prudentes que fluem 
no âmago do sentido refrescado pela brisa que corre do mar
onde gaivotas descansadamente procuram abrigo na imensidão do areal.

Olho-te em verbo.  
Como quem olha as promessas de um livro branco.

Leio-te, sem te ver.  
Nas palavras repetidas, de outros lugares, de outros rostos,
locais sem nome, sem título, iluminados que sejam pela máscara da nudez do incerto.
Fénix que precede como um grito que brota do inominado circuito que orquestra os sentidos.

Conjuga o verbo conhecer e ter-me-ás.