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Alma Minha...

Arquivo de sonhos e memórias.

Alma Minha...

Arquivo de sonhos e memórias.

09
Dez10

Sonhos

Eugenio Recuenco

 Imagem de Eugenio Recuenco


 
 

Deu a volta maquinalmente à chave desligando o motor do veículo e recostou-se para trás enquanto fitava a paisagem à sua frente.

 

O mar revolto contrastava com a calma do seu coração e lembrou-se dos tempos em que todo o seu corpo fremia como as ondas que contemplava.

 

Saiu do carro devagar e percorreu a praia, palco de outros dias… outros sonhos…

Maquinalmente, pegou no pequeno tronco caído no chão e desenhou as letras que compuseram a palavra “Sonhos” e sentou-se na areia contemplando-a, enquanto a espuma das ondas levava, lentamente, cada uma delas…

 

Apetecia-lhe mergulhar naquele mar e deixar lá todas as recordações e quando regressasse à margem nada existisse nela que lhe trouxesse lembranças, mesmo aquelas mais felizes; queria saber-se limpa de todas as reminiscências que a rodeavam.

 

Lentamente, tirou uma a uma cada peça do vestuário e mergulhou nas águas revoltas, afastando-se cada vez mais da margem.

 

Quando quase perdia o fôlego parou e virou-se para trás: a linha do horizonte era tão minúscula que mal se via a separação entre a terra e o mar.

 

Era assim que ela queria as suas recordações: uma linha no horizonte…
Por instantes flutuou nas ondas revoltas e depois deixou que elas a levassem de volta.

 

Indiferente aos olhares de quem passava, caminhou completamente desnuda pela areia sentindo gotas deslizarem na sua face, mas não se importou!

 

O que sabiam aqueles olhares indiferentes gélidos de interrogações, da alma de cada um?

 

Era naquele instante uma ilha deserta, onde os seus pensamentos e ilusões eram os seus únicos ocupantes, mas onde desejava deixar entrar luar, estrelas, carícias, desejos…

 

Tudo dentro dela pedia um só momento, uma só palavra, que enchesse a ilha de um sol deslumbrante, mas sabia que esse momento não iria existir.

 

Calmamente por sobre o corpo molhado, o vestuário voltava ao seu corpo, quando… sentiu um barulho que se aproximava, cada vez mais…

 

Abriu os olhos e…

 

 

S implesmente 
O sonho
N ão acaba
H oje… porque 
O meu
S onho, és tu!

 

.

01
Dez10

No silêncio do vento

Na "minha" praia favorita num dia frio...


 

Hoje acordei com vontade de ser feliz.

De deixar fluir o meu âmago de mulher e viver cada momento que a vida oferece, numa simples flor, num passeio ao longo do mar ou na carícia de um tímido beijo; voltar ao local dos meus sonhos e embalar-me na ternura dos teus braços, enquanto sussurras palavras de amor, roçando a minha pele que se cola à tua como se fossemos um só corpo e vontade.

Em cada viagem a imaginação é um sol de deslumbramento, num tempo sem tempo, onde pinto o sonho na palma da mão e com ela rasgo o teu sorriso em carícias de pele, em fôlego de desejos na consagração do amor.

Memória de sussurros no término da noite, onde te dás e eu me dou, gota a gota, em beijos cálidos como música, saciando-nos na energia do alento de viver, sorrindo, a cada carícia com que tomas meu corpo como se fosse a tua casa e contas a história da nossa ternura, em etapas de anos, suspiros e encantos, marcas visíveis aos olhos da alma onde nos demos com fervor, em mãos inundadas de afectos e uma linguagem só por nós perceptível.

No silêncio do vento em fogo de mar ardente, nas asas dos teus braços eu esvoaço, no sabor a uvas e chá de jasmim e sorrio para ti.

Hoje acordei com vontade de ser feliz e no teu corpo de sândalo deixar-me amar.

Na eterna carícia dos teus lábios, no fogo da língua percorrendo a nudez do meu corpo, uma melodia de desejos, um a um, saciando-nos.

Hoje não acordei de um sonho. Quero ser a satisfação do próprio sonho.

Amar é a única verdade que possuímos.


 30 de Novembro de 2009  

 

 

 

07
Set10

Frugal utopia

 (Imagem de Willy Marthinussen)

 

 

Ela apaixonara-se pela ideia da imagem

que ele tudo fizera por transmitir. 

 

Ele apaixonara-se pela ideia

do que pensava que ela iria ser.

E não foi!

 

Nenhum deles,

afinal,

estava apaixonado:

ambos estavam equivocados

na visão do que cada um fazia do outro.

Pura utopia!

 

E, dos frugais ensejos que tiveram,

nada restou. 

Apenas dois desconhecidos.

 

19
Ago10

Apenas um instante

claudio partes

 



 

Hoje acordei com vontade de dizer que tenho saudades do teu abraço, dos teus lábios macios, tocando levemente os meus, das tuas mãos acariciando a minha nuca, deslizando suavemente pelo decote do meu seio. 

Ah… o sonho… a facilidade de tornarmos tão real pensamentos íntimos que nem a nós próprios queremos, por vezes, confessar.

Gosto de imaginar a tocares-me e, tímida, afasto-te, mas ao mesmo tempo, o fogo do teu corpo encostado ao meu, abre em mim desejos que não quero olvidar.

Recordo os teus olhos, malandros, plenos de vida e carícias; deixo-me afundar, em sonhos, neles…

Existe vida para além dos muros de silêncio em que te encerras”, digo a mim própria, em determinadas alturas, quando me sinto sufocar nas quatro paredes da gaiola de ouro onde me confino diariamente.

Olho o meu corpo, carregado de desejos e ternuras; sinto-me em metempsicose, como que, numa outra vida, a viver aquilo que me está vedado…

O meu pensamento vagueia no infinito: pode uma mulher anular dentro de si o apelo da natureza ou deixa que a explosão dos seus sentidos possa quebrar e banir padrões tradicionalmente impostos?

Valerá a pena o sacrifico de deixar morrer o seu corpo, carente de afectos e desejos, incapaz de conseguir quebrar esses mesmos padrões que lhe impuseram?

Dentro da minha alma o sonho permanece … fogo, suor, caminhos por desvendar. 

Nas tuas mãos me entrego. Juntos encetamos a viagem a todo o universo, meu coração e corpo conjugam o verbo amar, em todos os tempos…

 

Dizer da palavra amar,
falar dos sentidos da alma,
dos desejos avassaladores,
das noites mal dormidas,
acalentando sonhos por realizar.

Dizer da palavra tempo
que não existe
na nossa memória,
oscilando, suavemente,
à brisa do entardecer,
por entre almíscares
que se colam na nossa pele.

Dentro de mim
há um espaço para voar
que emerge do oceano
dos sentidos e flutua
na consistência do ser.

Porque o sonho dura
apenas um instante…

 

 

 

(6.Janeiro.2009)

Desenho de Cláudio Partes

18
Ago10

Quimera

 Pintura de George Frederic Watts

George Frederic Watts  

  

 

Todos nós sabemos que nem todos os sonhos se realizam; uns demoram uma infinidade de tempo a concretizarem-se, outros…irão vaguear eternamente em sonhos.

Mas num desses sonhos, de um momento para o outro, encontrei-me a sós com o próprio sonho... para quê negá-lo: há muito desejava este encontro.

O meu corpo vibrava ansiosamente enquanto nos cumprimentávamos num beijo cândido que não traduziu o fogo que o seu corpo, encostado ao meu, provocou em mim.

Conversámos, mergulhámos nos olhos um do outro, as mãos tocaram-se...

Absorvemos o perfume de cada um, sentimos que as nossas peles se entendiam.

De súbito, convida-me a sair dali, para podermos estar sozinhos; ia jurar que não lhe respondi que sim...nem que não.

Sei que me pegou na mão e, conversando com a maior naturalidade, voámos para local onde povoam os sonhos e pelas brechas do entendimento que o meu coração permitia, dado o estado de êxtase em que estava pela realização de algo que nunca imaginara possível, ainda percebi da horrível demora em chegarmos.

A ansiedade tomava conta de mim quando, com gentileza, convidou-me a segui-lo e daí a abraçar-me, foi o tempo que o tempo não mede.

Foi um longo, longo abraço. Não pronunciámos palavra, apenas nos apertámos, corpo contra corpo e voámos.

A imaginativa abertura de uma garrafa de champanhe foi o ponto alto que comemorou o nosso encontro e diante um do outro, olhos nos olhos, enlaçámos o braço que segurava o copo e bebemos ao mesmo tempo que selámos a nossa condição de...apaixonados.

Se até aí eu tinha dúvidas neste gesto ficou a certeza para a vida: eu seria dele, para sempre, no imaginário que povoa os meus sonhos…

O seu corpo aperta-se contra o meu e tomando o meu rosto nas suas mãos beija-me demoradamente os olhos, enterrando os dedos nos meus cabelos; leva a sentar-me num pequeno maple e coloca-se a meus pés, pousando a cabeça no meu colo serenamente, enquanto as suas mãos tacteavam o meu corpo.

As minhas, lentamente, afagavam o seu cabelo macio, enquanto ele, ousadamente, continuava em peregrinação tocando-me delicadamente a pele, detendo-se no seio visível por debaixo do fino tecido.

Os seus lábios, macios, tocam os meus num beijo que sorve o hálito um do outro. Sem resistir, deixo-me acariciar, enquanto penso que sonho me transportou para aquele momento…

Sentou-se a meu lado e, de súbito os meus sentimentos explodem numa vertigem inimaginável… estamos nos braços um do outro e, como um raio, esse gesto entrou-me na alma a dizer: ele tomou-te, serás dele…. Já não é ele, apenas, que te possui; agora és tu que o vais tomar para ti.

A excitação apodera-se de todo o meu corpo; a respiração, cada vez mais apressada, provoca-o, eu solto a minha paixão: a minha boca procura-o, primeiro suavemente, depois com o frenesim que já não consigo ocultar.

Os meus lábios sugam a sua pele e os seus beijos dominam-me. Deixo-me levar pela ardência do desejo e as minhas mãos procuram-no com ímpeto.

Ainda não sei porque parei nesse momento único. Estava ofegante, feliz, nas nuvens da paixão. O meu corpo era uma explosão de sentimentos há muito não percebidos.

Nada parecia crer que iria descer à terra. Mas desci. E o sonho terminou ali, naquele breve instante em que os nossos corpos mal se tocaram. O seu rosto povoa-me os sonhos. A fantasia inunda-me a alma...

Quando abri os olhos, ainda com a mente povoada de doces ilusões, nada restava… a não ser a realidade, a minha tão terna realidade… porque sonhos… serão eternamente sonhos.

Nos sonhos nada se consubstancia... são, apenas, uma mera ilusão… imaterial.



No eterno sonho dourado
dos teus olhos
longe de tudo
a madrugada passou
a água esculpe na montanha
rios límpidos e transparentes.

O crepúsculo partilha os teus momentos
e a espera da manhã
colhe as flores do amor
que existe no coração
em suave brisa
que acaricia o sol
e sente
a ternura do
vento.